Entevista com o autor de “PODER PARALELO” da Record
” O momento é oportuno para debater o excesso de corrupção”, Lauro César Muniz
Paulista de Ribeirão Preto, Lauro César Muniz, de 70 anos, é um dos mais importantes autores de telenovelas do Brasil. O primeiro sucesso veio em 1970, na “Rede Record”, com a adaptação do romance “As Pupilas do Senhor Reitor”. Para a concorrente “Rede Globo”, escreveu, entre outras, “Escalada” (1975), “O Casarão” (1976), “Roda de Fogo” (1986) e “O Salvador da Pátria” (1989). Desde 2006, como autor de “Cidadão Brasileiro”, ele está de volta à “Record”. Agora a nova empreitada de Muniz é a trama de “Poder Paralelo”, que estreia na terça-feira, 14 de abril.
1 – Por que misturar narcotráfico sul-americano com máfia italiana em “Poder Paralelo”?
O Brasil vive um momento em que é importante debater o excesso de corrupção e a infiltração de organizações criminosas junto ao poder público, interferindo nas decisões de um país que funciona como corredor de escoamento de grande parte do tráfico de drogas mundial. Ao contrário dos românticos anos 40 nos Estados Unidos e na Itália, hoje, a máfia forma uma rede globalizada com todos os países.
2 – Como o senhor utiliza o livro “Honra ou Vendetta”, de Sílvio Lancellotti, no qual a novela é baseada?
Além de base para criar personagens da máfia, o livro me deu informações da influência da máfia italiana em São Paulo e dos costumes de Palermo, onde começará a novela. No entanto, com menos de 20% da novela escrita, eu já quadrupliquei o número de páginas que ele escreveu e, enquanto a ação do livro se passa no final da década de 80, eu puxei para a atualidade. Os filmes que trataram da máfia, caso da trilogia de Francis Ford Coppola (“O Poderoso Chefão”), também serviram de inspiração.
3 – Qual é a diferença entre escrever novelas hoje e na década de 70?
Nos anos 70, as novelas eram mais curtas. Um capítulo tinha cerca de 23
páginas, com 15 cenas, e durava por volta de 40 minutos. Hoje, escrevemos cerca de 34 páginas, com 40 cenas, para 55 minutos. Além disso, é preciso haver mais ação, talvez por influência do cinema americano. Com isso, o trabalho ficou mais difícil, exigindo a participação de outros autores. Eu escrevo com dois autores experientes (Vera Castellar e Mario Viana), que ficam comigo, e outros que ficam fora escrevendo cenas isoladas. No final, faço uma varredura no capítulo completo para ficar com um só estilo.
4 – O senhor acha que a “Record” faz melhores cenas de ação em telenovelas?
A ação física, com perseguições de carro, tiroteios e incêndios é marca da dramaturgia da “Record” e opção de quem quer conquistar audiência. Descobriu-se que a audiência é maior na exibição dessas cenas em “Os Mutantes” e “Chamas da Vida”, que fascinam o espectador. “Poder Paralelo”, por ser sobre máfia, exigirá lutas e tiroteios, mas sem exagero de sangue. O diretor Ignácio Coqueiro também atendeu minha reivindicação de fazer uma novela bastante realista, sem artificialismos e caricaturas.
5 – As novelas da “Record” devem lutar pela audiência ou tentar criar uma nova linguagem?
A “Record” tem que brigar por audiência e enfrentar a concorrente com todas as armas. Enquanto a concorrência afunda por insistir num tipo de telenovela de má qualidade, nós temos que buscar a qualidade como algo que resultará em audiência. Foi o que aconteceu com o jornalismo da “Record”. “Vidas Opostas” também teve padrão de qualidade bem superior ao das demais novelas. Há, no contrato da emissora, uma tabela de ganhos proporcionais à audiência, mas não me foco nisso, e sim na qualidade.
6 – A qualidade está em fazer um personagem principal ambíguo, Tony Castellamare (interpretado por Gabriel Braga Nunes)?
Na década de 90, as novelas perderam muita qualidade, preocupadas em colocar o bem de um lado e o mal do outro, o que acho ultrapassado. O personagem do herói ficou um enorme chato. É preciso que ele tenha contradições e tenha um lado positivo e outro negativo, como todas as pessoas.
7 – Por que manter Gabriel Braga Nunes e Paloma Duarte, dois atores de “Cidadão Brasileiro”, em “Poder Paralelo”?
O trabalho dos dois me encantou e, por isso, quero trabalhar de novo com eles. A “Record” foi sensível e me deu o melhor elenco possível, com todos os atores absolutamente adequados aos personagens. Tiago (Santiago, autor de “Promessas de Amor” e consultor de novelas da “Record”), por exemplo, retirou Gabriel e Tuca Andrade antes do final de “Os Mutantes” para eles entrarem em “Poder Paralelo”.
8 – Por falar em Tiago Santiago, como foi o desentendimento com ele?
Nós temos pontos de vista antagônicos com relação à telenovela. Como ele é assessor da cúpula da emissora, vetou minhas tentativas de trazer personagens ambíguos e humanos. Surgiu, então, uma animosidade entre nós. Mas já conversamos sobre o assunto e não há mais influência dele em meu trabalho.
9 – Incomodou a troca de nome de “Vendetta” para “Poder Paralelo”?
A imprensa insistiu muito nisso e não é verdade. Acho “Poder Paralelo” até mais pertinente do que “Vendetta”, pois trata do terrível poder paralelo que tenta destruir as instituições oficiais. Essa opção estava numa lista de 3 mil nomes que me ofereceram e passou batido. Mas eu havia pensado em “Poder”, título dado na Itália para a novela “Roda de Fogo”.
10 – Por que o senhor disse que, se fosse refeita hoje, a novela “O Salvador da Pátria” deveria ser chamada “O Traidor da Pátria”?
Em 1989, (ano de eleição para presidente em que disputaram o segundo turno o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor), o personagem Sassá Mutema, o Salvador da Pátria, foi associado ao Lula. Mas não fiz com a intenção de criticá-lo. Agora, a piada de dizer “Traidor da Pátria” é em função da grande decepção com esse governo e com o PT (Partido dos Trabalhadores). Já tivemos alguns esclarecimentos, mas a situação ainda está por ser plenamente explicada.
Por Guilherme Bryan – Da: Folha Universal










